Diário da UTI: Por Que Estou Escrevendo Sobre o Dia a Dia na Terapia Intensiva
A partir de amanhã, vou fazer algo diferente. Vou escrever sobre os meus dias — os de verdade. Nada de conselhos polidos sobre carreira ou guias de estudo, mas o que realmente acontece durante um plantão na UTI.

Por Que um Diário?
Porque a maioria do conteúdo de enfermagem na internet é higienizado. São "10 Melhores Dicas" e "Como Alavancar Sua Carreira" e fotos genéricas de enfermeiros sorrindo com o cabelo impecável.
Essa não é a UTI que eu conheço.
A UTI que eu conheço é:
- Titulação de medicamentos às 3 da manhã enquanto o outro paciente tenta se autoextubar
- Segurar o celular para que uma família possa se despedir
- Rir de humor negro com a equipe porque às vezes é a única forma de aguentar
- Chegar em casa depois de um plantão de 12 horas e ficar olhando para o teto porque o cérebro não desliga
- A satisfação silenciosa de ver um paciente ser transferido para a enfermaria depois de semanas entre a vida e a morte
É sobre isso que eu quero escrever.
Como Vai Ser Esta Série
Isto não é um livro-texto clínico. É uma janela para a vida real na UTI. Você pode esperar:
Histórias de Plantão
O que aconteceu no meu plantão — os casos interessantes, os momentos desafiadores, as pequenas vitórias. Detalhes dos pacientes serão sempre alterados para proteger a privacidade, mas as emoções e experiências serão reais.
Reflexões Honestas
Como me senti durante e depois de certas situações. A UTI não é só clínica — é emocional. Quero falar sobre os dois lados.
Lições Aprendidas
Não lições de livro, mas lições de verdade. Aquelas coisas que você aprende com a experiência e que nenhum professor consegue te ensinar:
- Como perceber o clima da sala quando um médico está prestes a perder a paciência
- Quando questionar uma prescrição que não parece certa
- Como se dosificar ao longo de quatro noites seguidas de plantão
- O que dizer (e o que não dizer) para famílias em crise
As Coisas Rotineiras
Nem todo plantão é de vida ou morte. Alguns plantões são:
- Longas horas de documentação
- Esperar resultados de exames
- Silenciar alarmes de cama sem parar
- Tentar encontrar uma bomba de infusão que funcione
- Comer comida fria no posto de enfermagem
Isso também é a vida na UTI, e acho que vale a pena registrar.
Para Quem É Isso
Enfermeiros(as) Novos na UTI
Se você está apenas começando sua carreira na UTI, esses relatos podem te ajudar a se sentir menos sozinho(a). As dificuldades que você está enfrentando? Todos nós enfrentamos. A síndrome do impostor? É universal.
Enfermeiros(as) Experientes de UTI
Às vezes ajuda saber que alguém mais entende. Que suas frustrações, seu humor negro, seus sentimentos complicados sobre esse trabalho — são compartilhados por enfermeiros de UTI em todo lugar.
Enfermeiros(as) Considerando Ir para a UTI
Se você está numa enfermaria geral se perguntando como é a vida na UTI de verdade, esses relatos vão te dar uma imagem mais honesta do que qualquer folheto de recrutamento.
Não-Enfermeiros
Talvez você seja um familiar que teve alguém internado na UTI e quer entender o que os enfermeiros estavam passando. Ou talvez você só tenha curiosidade sobre o que acontece por trás das portas da unidade. De qualquer forma, você é bem-vindo(a) aqui.
O Que Eu Não Vou Fazer
- Compartilhar informações identificáveis de pacientes. Nunca. Detalhes serão alterados, combinados ou ficcionalizados, mantendo a verdade emocional intacta.
- Fingir que sou perfeito(a). Eu cometo erros. Tenho dias ruins. Às vezes questiono se estou na carreira certa. Tudo isso faz parte da história.
- Amenizar as coisas. Se um plantão foi brutal, vou dizer. Se chorei no estacionamento, vou escrever sobre isso. A enfermagem não precisa de mais positividade tóxica.
- Dar conselhos médicos. Este é um blog com a perspectiva da enfermagem, não uma referência clínica. Para orientação clínica, sempre siga a prática baseada em evidências atuais e os protocolos da sua instituição.
Meu Histórico
Para quem é novo por aqui: comecei como enfermeiro(a) generalista que descobriu a UTI por causa da COVID. Depois de me apaixonar pela terapia intensiva, voltei e concluí uma Pós-Graduação em Enfermagem de UTI. Agora trabalho em tempo integral na UTI e quero compartilhar como isso realmente é.
Você pode saber mais sobre mim aqui.
Uma Nota Sobre Saúde Mental
Escrever sobre o trabalho na UTI significa escrever sobre coisas difíceis — morte, sofrimento, dano moral, burnout. Vou ser honesto(a) sobre esses temas, mas também vou ser responsável.
Se algum relato mexer com você e estiver passando por dificuldades, por favor converse com alguém. O programa de assistência ao funcionário do seu hospital, um psicólogo, um colega de confiança — procure ajuda. Esse trabalho já é difícil o suficiente sem carregar tudo sozinho(a).
Vamos Começar
Amanhã é meu próximo plantão. No final dele, vai ter uma história para contar. Talvez seja sobre um salvamento que deu certo. Talvez seja sobre uma perda que doeu. Talvez seja sobre as três horas que passei resolvendo um problema de alarme de cama.
Seja o que for, vai ser real.
Bem-vindo(a) ao Diário da UTI.
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